O caso de uma doente oncológica em fase terminal, fotografada deitada no chão do Serviço de Urgência dos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), está a provocar forte indignação pública e a expor duas versões completamente opostas sobre o que aconteceu numa das maiores unidades hospitalares do país.
De um lado, o relato dramático da família. Do outro, a negação firme da Unidade Local de Saúde (ULS) de Coimbra.
A denúncia partiu do filho da utente, uma mulher de 59 anos com cancro generalizado na zona abdominal, em tratamento há mais de duas décadas, com dores constantes, mobilidade muito reduzida e dependente de dispositivos clínicos. Segundo o familiar, na quinta-feira, perante o agravamento do estado de saúde da mãe, tentou acionar os meios de emergência, sem sucesso.
De acordo com o relato, as chamadas para a linha Saúde 24 não tiveram resposta e, após contacto com o 112, foi inicialmente garantido o envio de uma ambulância. Cerca de vinte minutos depois, a família terá sido informada de que não existiam ambulâncias disponíveis, sendo aconselhada a aguardar por tempo indeterminado.
Perante a ausência de socorro, a doente acabou por ser transportada para o hospital em viatura própria, após mais de uma hora de espera, deitada no banco de trás do carro por não conseguir manter-se sentada. À chegada às urgências, segundo o filho, não havia macas disponíveis. A alternativa apresentada terá sido uma cadeira de rodas, que a mulher não conseguiu utilizar devido às dores intensas.
Sem resposta imediata e com a doente a gritar de dores, o familiar acabou por a deitar no chão da área das urgências, envolvida numa manta. O momento foi fotografado e divulgado nas redes sociais, gerando uma onda de choque e críticas à resposta do Serviço Nacional de Saúde.
A versão da ULS de Coimbra é radicalmente diferente. Em comunicado divulgado este sábado, a instituição rejeita que a doente tenha permanecido no chão por falta de macas e garante que essa afirmação “não corresponde à verdade”. Segundo a ULS, um enfermeiro de pré-triagem foi abordado por um familiar com pedido de maca, mas verificou que a doente se encontrava calma, orientada e capaz de se sentar.
A unidade hospitalar assegura que foi disponibilizada uma cadeira de rodas, com apoio de um segurança, e que a doente entrou no Serviço de Urgência sentada, acompanhada por dois familiares, situação que diz estar confirmada pelos elementos de segurança de serviço.
Ainda assim, a ULS admite que, durante “um curto intervalo temporal”, um familiar decidiu regressar ao veículo, trazer uma manta, estendê-la no chão e deitar a doente, anunciando a intenção de fotografar e divulgar imagens. Segundo o hospital, um bombeiro alertou de imediato a equipa de enfermagem, que interveio prontamente e procedeu à triagem clínica da utente.
“A ULS de Coimbra não permitiu, nem permitiria, que uma doente permanecesse no chão por inexistência de meios”, garante a instituição, sublinhando que essa regra se aplica a qualquer utente, independentemente da sua condição clínica.
Após o episódio, a doente recebeu assistência médica, incluindo administração de soro, analgesia com morfina e realização de exames complementares. Teve alta no mesmo dia, mas acabou por voltar a necessitar de cuidados e encontra-se atualmente internada.
Entre a imagem que chocou o país e a resposta oficial que rejeita qualquer falha estrutural, o caso está longe de encerrado. A ULS anunciou a abertura de um processo interno para averiguar os factos, num episódio que reacende o debate sobre a pressão nas urgências, a escassez de meios e os limites da dignidade no atendimento a doentes em estado crítico.
