Numa entrevista de balanço aos últimos meses da vida política e autárquica do concelho, Jorge Almeida traçou um retrato abrangente do estado das principais obras municipais, respondeu às críticas provocadas pelos atrasos e pelos efeitos do mau tempo, detalhou a estratégia para a mobilidade e habitação em Águeda e deixou um conjunto de compromissos para os próximos meses. Do Mercado Municipal à ligação Águeda-Aveiro, da resposta às cheias à regeneração urbana nas freguesias, o presidente da Câmara Municipal de Águeda insistiu numa ideia central: o concelho está a viver um ciclo de transformação estrutural e de crescimento.
Ao longo da conversa, o autarca procurou justificar atrasos, contextualizar constrangimentos legais das obras públicas e, ao mesmo tempo, reforçar a ambição do Executivo. “Estamos neste processo sempre de fazermos mais e mais”, afirmou, sustentando que Águeda atravessa uma fase marcada por empreitadas de grande dimensão, “algumas delas estruturantes”, que exigem tempo, cumprimento rigoroso da lei e resistência perante contrariedades.
Mercado Municipal: “Nunca tive nenhuma obra tão complexa”
O Mercado Municipal foi um dos temas centrais da entrevista e voltou a surgir como símbolo maior das dificuldades, mas também das expectativas do Executivo. Jorge Almeida não escondeu os sucessivos obstáculos enfrentados ao longo do processo e classificou a empreitada como a mais complicada que acompanhou em décadas de ligação às obras municipais.
“Eu já disse e afirmei várias vezes, eu nunca tive nenhuma obra tão complexa e com tantas complicações como as obras do mercado”, declarou.
Segundo o presidente da Câmara, os problemas não se resumem ao impacto recente do mau tempo. A complexidade vem de trás, nomeadamente de falhas detetadas no projeto inicial, situação que obrigou o município a rescindir com o projetista e a avançar para uma reformulação profunda do processo. “Verificámos que o projecto não tinha as características, não tinha condições, não estava correcto de e tivemos que o alterar. Tivemos que rescindir com o projetista, num processo demorado”, explicou, acrescentando que mais de metade do tempo total da obra foi consumido em procedimentos burocráticos e técnicos ligados a essa reformulação.
Ainda assim, Jorge Almeida garantiu que a empreitada se encontra na fase final e rejeitou novos agravamentos financeiros. “A obra está, eu diria que sem grandes complicações, não tem derrapagens mais nenhumas financeiras, porque não tem, não há lugar a isso. É uma obra perfeitamente regular”, assegurou.
O presidente justificou também a recente prorrogação de 60 dias concedida ao empreiteiro, considerando que a mesma resulta de circunstâncias objetivas e legalmente incontestáveis. “O empreiteiro tem direito por lei e de forma absolutamente inequívoca a essa prorrogação”, disse, referindo que as condições meteorológicas impediram a execução de pinturas e arranjos exteriores.
Apesar de admitir que a perspetiva de abertura na Páscoa deverá derrapar “aqui um pouquinho”, Jorge Almeida mostrou-se convicto no impacto final do equipamento e deixou uma frase de efeito sobre a expectativa criada em torno da obra: “No dia em que nós o inaugurarmos, há muitas bocas que se vão calar.”
Um mercado com finanças, restauração e nova centralidade
Mais do que um espaço tradicional de venda, o novo Mercado Municipal é apresentado pelo Executivo como uma infraestrutura com funções alargadas e forte capacidade de reorganização urbana. Jorge Almeida confirmou que os serviços da Autoridade Tributária deverão ser instalados no edifício, numa solução que, no seu entendimento, beneficia simultaneamente os utentes, os funcionários e a dinâmica comercial da zona.
“O mercado de Águeda vai funcionar num outro, contra ambição, com outras coisas, e vai ser muito mais do que aquele mercado que nós estávamos habituados a fazer e a ter”, defendeu.
Além da componente comercial, o espaço incluirá lojas, restauração no primeiro piso e melhores acessibilidades, com escadas rolantes e elevadores. Sobre a mudança dos serviços da AT, o autarca apontou duas razões principais: as condições atuais na Avenida Dr. Eugénio Ribeiro, que considerou pouco adequadas, e a possibilidade de gerar mais movimento no mercado com a presença diária de centenas de pessoas.
“Também é apelativo para o mercado, porque nós sabemos perfeitamente com aqueles serviços ali a funcionarem, temos ali um conjunto de pessoas, muitas pessoas, que vão ao mercado”, afirmou.
Jorge Almeida revelou ainda que o concurso para as lojas deverá ser lançado “dentro das próximas semanas”, sublinhando que será um procedimento “transparente, claro, tranquilo”.
Avenida 25 de Abril e bombeiros: obra estratégica aguarda momento certo
Associada à conclusão do mercado surge a requalificação da Avenida 25 de Abril, uma intervenção considerada particularmente sensível por causa da proximidade ao quartel dos Bombeiros Voluntários de Águeda e pela necessidade de manter a circulação numa das zonas mais críticas da cidade.
O presidente da Câmara confirmou que o projeto está pronto, tem financiamento garantido e obra contratualizada, mas a intervenção ainda não avançou por razões operacionais. “Nós não podemos paralisar todo o trânsito da baixa”, frisou.
A estratégia passa por concluir primeiro as acessibilidades a sul do mercado, criando alternativas viárias que permitam depois intervir no troço entre os Bombeiros e a zona da Pauliceia. O objetivo, explicou, é melhorar a fluidez do trânsito, aumentar a capacidade de resposta e garantir melhores condições para a circulação de veículos de emergência.
Na entrevista, Jorge Almeida voltou a sublinhar a importância dos bombeiros para o concelho, falando de uma relação de “muita atenção” e “muita estima”, e reforçando a ideia de que são “a espinha dorsal do sistema de proteção civil” local.

Crescimento urbano, superfícies comerciais e pressão imobiliária
Outro dos eixos fortes da entrevista foi o crescimento urbano de Águeda. Perante críticas relativas à localização de superfícies comerciais e ao impacto urbanístico em zonas centrais, Jorge Almeida respondeu com uma leitura mais lata do planeamento e da dinâmica económica.
Segundo o autarca, o Plano Diretor Municipal permite naquela zona, e também na Pauliceia, níveis de construção mais intensos do que aqueles que efetivamente ali surgiram. “O PDM de Águeda permite que na zona onde está o Mercadona e o Lidl agora, permitiria que tivéssemos ali prédios de seis ou oito andares”, recordou.
Nessa perspetiva, sustenta que a instalação daqueles espaços comerciais não representa necessariamente um mau resultado urbanístico. Mais do que isso, Jorge Almeida lê o atual momento como sinal de forte atratividade do concelho, também no mercado habitacional. Relatou, aliás, o caso de um promotor imobiliário que lhe terá transmitido que começou a escavação de um prédio e já tinha quase todas as frações vendidas.
“Não tenho dúvidas nenhumas, que nós entrámos numa espiral de crescimento e que nos próximos anos vão ser um tempo de grande crescimento da própria cidade”, afirmou.
O presidente alargou esta leitura ao conjunto do concelho, defendendo que não é apenas a cidade a captar investimento, mas também várias freguesias. E argumentou que o aumento da oferta habitacional poderá, a prazo, contribuir para aliviar os preços.
Vale do Grou: presidente admite incómodos, mas recusa egoísmo
Na frente das obras, o Vale do Grou também mereceu destaque. Jorge Almeida confirmou que a empreitada está em fase avançada e admitiu o descontentamento gerado pelo estado das estradas e pelos transtornos provocados num inverno particularmente duro.
“A crítica existe”, reconheceu. Mas aproveitou para deixar uma censura mais ampla ao que descreveu como falta de sentido coletivo. “Há pessoas demais que olham demasiado para o umbigo e não querem saber dos outros”, atirou.
O autarca insistiu que se trata de uma intervenção complexa, sem paralelo no concelho, e que o impacto das condições climatéricas foi significativo. Ainda assim, mostrou confiança numa conclusão no arranque do verão. “Estou absolutamente confiante que no início do verão também vamos ter aquela obra perfeitamente permeável”, afirmou.
Ponte do Covão: solução muda e município aponta para o verão
A situação da Ponte do Covão, afetada pelo mau tempo e atualmente com constrangimentos graves, foi igualmente abordada. Jorge Almeida explicou que o município está a seguir o caminho legalmente exigido, com projeto de intervenção concluído, contratualização em curso e mudança do conceito técnico da obra.
Segundo o presidente, a solução antiga baseada em elementos metálicos revelou fragilidades e será substituída por estruturas pré-fabricadas em cimento. “Vamos mudar completamente o conceito”, disse, explicando que as novas peças terão de ser fabricadas e respeitar tempos de cura, o que inviabiliza respostas instantâneas.
Ainda assim, deixou um horizonte temporal: “De uma forma otimista, no princípio do verão temos o assunto resolvido.”
O autarca fez também questão de esclarecer a origem do problema, afastando leituras de colapso generalizado da estrutura. Segundo explicou, o que cedeu foi uma parte associada à fragilidade dos elementos metálicos perante o enorme volume de água que atravessou aquela zona durante o inverno.
Marnel depende das Infraestruturas de Portugal
Na subida do Marnel, outra zona afetada, Jorge Almeida lembrou que a responsabilidade principal não é da Câmara, mas sim das Infraestruturas de Portugal. Ainda assim, garantiu acompanhamento próximo e disponibilidade para colaborar.
“A única coisa que nós podemos fazer é tentar colaborar naquilo que podemos fazer”, afirmou, dizendo que, segundo os técnicos da IP, não há risco iminente de cedência da parte ainda em uso da estrada.

Cheias: margem direita validada, margem esquerda em preparação
A resposta às cheias e às intempéries foi outro tema dominante. Jorge Almeida assumiu o desempenho da proteção da margem direita do rio Águeda como uma confirmação clara da opção política tomada pelo município, sublinhando que a solução agora testada provou a sua eficácia.
“É o encontrarmo-nos e termos a tranquilidade de percebermos que escolhemos a opção correta”, resumiu.
Recordando divergências do passado com entidades financiadoras, o presidente relatou que recusou avançar com uma solução limitada de alargamento da Ponte do Campo, por a considerar insuficiente. Em vez disso, insistiu noutra abordagem, o que gerou tensão e risco de perda de financiamento. “Eu não vou fazer isto, isto não é a solução”, recordou ter dito na altura.
Hoje, entende que os resultados lhe deram razão. “Assumi mesmo naquela altura. Agora naturalmente me sinto muito satisfeito, porque afinal de contas resultaram e resultaram bem”, declarou.
Mas a entrevista não se ficou pelo balanço da margem direita. Jorge Almeida anunciou que o município está já a preparar uma solução para a margem esquerda, com proteção de zonas como o Sardão, o Além-Rio, a Rua Dr. Manuel Alegre Pinto, a ligação a Recardães e a antiga Estrada Nacional 1, tentando reduzir ao máximo o impacto das cheias sem comprometer a função natural de expansão das águas.
“O projeto está desenvolvido, o financiamento está prometido e nós vamos conseguir fazer”, garantiu.
Segundo o autarca, o conceito aplicado na margem direita será adaptado a uma realidade completamente diferente do outro lado do rio, o que poderá transformar Águeda numa referência mais ampla no domínio da adaptação climática e da proteção urbana em zonas ribeirinhas.
Danos da intempérie: levantamento feito, prioridades definidas
Sobre os estragos provocados pelo mau tempo no concelho, Jorge Almeida garantiu que foi feito um levantamento tão exaustivo quanto possível e que o município está a atuar em função das prioridades. Linhas de água, pontes, rombos e outras ocorrências estão identificados, disse, embora reconheça que possa sempre ter escapado algum detalhe.
O presidente enquadrou a situação local num cenário mais vasto de emergência regional e nacional, relatando a deslocação a Leiria enquanto presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro e defendendo uma lógica de solidariedade entre territórios.
“A solidariedade não se fala, pratica-se”, afirmou, explicando que até empreiteiros de obras municipais tiveram de interromper trabalhos para acudir a situações mais urgentes noutras zonas severamente afetadas.
Parque alagável no âmbito do Green Leaf: “Vamos ter aquele sistema alagado”
Questionado sobre o futuro parque previsto numa zona naturalmente suscetível a inundações, Jorge Almeida respondeu sem rodeios: sim, haverá períodos do ano em que o espaço ficará alagado. Mas isso não invalida a intervenção. Pelo contrário, o objetivo é criar uma solução compatível com a dinâmica natural do rio.
“Durante alguns dias, durante o ano, nós vamos ter aquele sistema alagado. Nós temos de encontrar soluções alagáveis e que não resultem aí grande prejuízo”, explicou.
O conceito passa por renaturalizar o espaço, criar circuitos, integrar vegetação adequada e devolver fruição pública a uma área marcada pela proximidade ao rio. A lógica, sustentou, não é lutar contra a natureza com betão e infraestruturas rígidas, mas desenhar um espaço resiliente, funcional e agradável durante a maior parte do ano.
“O nosso objectivo é fazermos qualquer coisa que seja referência para o país e para o mundo”, afirmou.

Águeda-Aveiro: expropriações a avançar e obra cada vez mais perto
A ligação Águeda-Aveiro foi tratada como uma prioridade absoluta e uma das grandes chaves para o futuro do concelho. Jorge Almeida confirmou o avanço do processo expropriativo, sublinhando que as declarações de utilidade pública dos terrenos necessários já estão a sair, aproximando a empreitada do terreno.
“Estamos a caminhar largamente para aquilo que mais importa é que é o começar”, afirmou.
O autarca voltou a garantir que nunca desistiu da obra e que o processo, apesar de moroso, entrou numa fase decisiva. E sublinhou que, paralelamente à futura estrada, o município está já a preparar as adaptações necessárias no sistema viário local, nomeadamente na zona da rotunda do Milénio, do posto da GNR e da ligação à antiga EN1.
“Já estamos com o projeto concluído, vamos avançar com essa obra”, revelou, indicando que a intervenção já foi candidata a fundos comunitários.
Nova estrada, nova pressão, novo ciclo habitacional
Na visão do presidente, o Águeda-Aveiro não é apenas uma infraestrutura rodoviária. É um acelerador de mudança para toda a zona norte da cidade e para várias freguesias do concelho. Com a melhoria da acessibilidade, Jorge Almeida antevê um aumento significativo do tráfego em certas entradas da cidade, mas também uma intensificação do investimento imobiliário e da procura habitacional.
“Estamos à espera de está a acontecer e começar a acontecer um boom construtivo em Águeda”, disse.
Identificou como zonas particularmente sensíveis à nova dinâmica territórios como Mourisca, Travassô e Valongo do Vouga, defendendo que o município já está a preparar respostas em termos de infraestruturas e ordenamento.
Ao mesmo tempo, insistiu na articulação com as juntas de freguesia para qualificar não só a cidade, mas todo o concelho, apontando exemplos como o pavilhão e o centro cívico de Valongo do Vouga, ou ainda a intervenção em Fermentelos. Na leitura do autarca, trata-se de levar a regeneração urbana para fora do centro da cidade.
Águeda é Natal e AgitÁgueda: “eventos estratégicos”
Na reta final da entrevista, Jorge Almeida fez um balanço muito positivo do Águeda é Natal e projetou com ambição a próxima edição do AgitÁgueda. O presidente defendeu que ambos os eventos são estruturantes para a economia local e para a afirmação do concelho.
“O Águeda é Natal e o AgitÁgueda alimentam e de que maneira o comércio e a restauração de Águeda”, afirmou.
Segundo o autarca, a hotelaria esgota durante esses períodos, a restauração sente forte procura e a notoriedade de Águeda cresce muito para lá da região, tanto pelo impacto nas redes sociais como pelo efeito do passa-palavra. Referiu até elogios de visitantes vindos da Corunha, em Espanha, que compararam a experiência de Águeda com outros destinos natalícios.
Já sobre o AgitÁgueda e a programação cultural mais ampla, Jorge Almeida voltou a sustentar que o concelho se está a afirmar como centro cultural de referência. E fez um elogio particularmente vincado ao vice-presidente Edson Santos, a quem atribuiu um papel central na criatividade e inovação desses projetos. “O grande obreiro é o Edson”, afirmou, descrevendo-o como alguém com “talento”, “capacidade de inovação” e “uma capacidade tremenda”.

Presidência da CIRA: “Sou presidente da CIRA porque sou presidente da Câmara de Águeda”
No encerramento da entrevista, Jorge Almeida abordou a acumulação de funções como presidente da Câmara Municipal de Águeda e presidente da Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro. Longe de ver nisso um problema, o autarca considerou que a presidência da CIRA reforça o peso político de Águeda e amplia a sua capacidade de intervenção.
“Sou presidente da CIRA porque sou presidente da Câmara de Águeda. É uma honra muito grande para Águeda ter o seu presidente como presidente da CIRA”, afirmou.
Mais do que uma distinção pessoal, Jorge Almeida apresentou essa responsabilidade como uma forma de pensar a região em conjunto, recusando visões isoladas entre municípios. “Deixei de pensar em mim, mas para passar a pensar em nós”, declarou.
O presidente concluiu com uma leitura muito otimista da Região de Aveiro e do território onde Águeda se insere, descrevendo-o como um dos melhores sítios do país e até do mundo para viver. Entre a ria, o mar, a pateira, as aldeias serranas e a Bairrada, Jorge Almeida traçou um discurso de pertença e ambição, defendendo que essa riqueza territorial traz também uma responsabilidade acrescida.
Um discurso de obra, resiliência e promessa de transformação
Ao longo da entrevista, Jorge Almeida mostrou-se em modo de justificação e de ofensiva. Justificação, perante atrasos, cheias, constrangimentos de obra e críticas públicas. Ofensiva, porque insistiu em apresentar quase todos esses problemas como etapas transitórias de uma transformação mais funda do concelho.
Na sua narrativa, o Mercado Municipal será uma obra marcante quando abrir; a margem direita já provou que a opção municipal era a correta; a margem esquerda terá finalmente resposta; o Águeda-Aveiro está a entrar na fase decisiva; e o concelho prepara-se para um novo ciclo de crescimento urbano, económico e demográfico.
Num momento em que várias obras estruturantes coincidem no terreno e na agenda política, o presidente da Câmara assume o risco e a ambição. Fica agora o teste decisivo: o da execução, dos prazos e da capacidade de converter promessa em obra concluída.
