A segunda edição do Kriol Jazz Festival arrancou esta sexta-feira no Centro de Artes de Águeda com um sinal inequívoco de afirmação: sala cheia, ambiente vibrante e um público rendido à força de uma proposta cultural que vai muito além da música. A noite de abertura ficou marcada pela atuação dos Os Tubarões, um dos nomes mais emblemáticos da música cabo-verdiana, num concerto que confirmou a dimensão internacional do evento.
Mais do que um festival, o Kriol Jazz assume-se como uma plataforma de encontro entre culturas, onde a música, a dança, a gastronomia e a identidade se cruzam num programa intenso ao longo de três dias. A edição deste ano reforça essa ambição, ampliando conteúdos e aprofundando a presença da cultura cabo-verdiana em múltiplas expressões.
O vice-presidente da Câmara Municipal de Águeda, Edson Santos, sublinhou a evolução do evento face à edição inaugural, destacando a diversidade da programação e a aposta numa experiência mais imersiva. Para além dos concertos, o público é convidado a contactar diretamente com tradições como o batuque, através da presença das batucadeiras, e com a gastronomia típica, com destaque para workshops de cachupa, um dos pratos mais emblemáticos de Cabo Verde. A intenção, explicou, é clara: “trazer Cabo Verde a Águeda em todos os sentidos”.
Essa dimensão transversal é, aliás, um dos traços distintivos do festival. A música surge como ponto de partida, mas rapidamente se expande para um território mais amplo de identidade cultural, onde a partilha e o contacto direto assumem um papel central. A programação combina nomes consagrados com propostas contemporâneas, criando uma ponte entre tradição e inovação, sempre ancorada no universo crioulo.
A presença institucional de Cabo Verde reforça o peso simbólico desta iniciativa. Jorge Figueiredo destacou a importância da diáspora e da circulação cultural como elementos estruturantes da identidade cabo-verdiana, sublinhando que eventos como este representam uma extensão natural dessa realidade. A ligação entre Águeda e Cabo Verde, afirmou, é hoje um exemplo concreto de como os territórios se podem aproximar através da cultura, promovendo não apenas o intercâmbio artístico, mas também uma relação humana e simbólica mais profunda.
Numa leitura mais ampla, o governante apontou o jazz como metáfora dessa mesma abertura: um espaço de encontro entre diferentes linguagens, onde a diversidade se transforma em harmonia. Num contexto internacional marcado por instabilidade, deixou ainda uma mensagem clara sobre o papel da cultura enquanto instrumento de paz, diálogo e aproximação entre povos.
Também Eliane Lopes destacou a relevância estratégica desta parceria, considerando que Águeda se tornou um ponto-chave na internacionalização do festival. Pela segunda vez consecutiva, e de forma inédita fora do continente africano, o Kriol Jazz realiza-se na cidade, consolidando um processo de exportação cultural que posiciona o evento num circuito global.
A responsável evidenciou ainda a adequação do espaço que acolhe o festival, referindo que o Centro de Artes de Águeda reúne condições técnicas e simbólicas para receber uma programação desta natureza. Para além dos concertos, o cruzamento com outras expressões artísticas, como a dança contemporânea no âmbito do Kontornu – Festival Internacional de Dança & Artes Performativas, reforça a ideia de um evento multidisciplinar, onde diferentes linguagens convivem num mesmo território.
Do lado do município, o presidente Jorge Almeida não hesita em classificar o momento como “diferenciador” para a cultura local, regional e nacional. Sublinha que o Kriol Jazz é um evento com raízes sólidas em Cabo Verde e em África, e que a sua realização em Águeda — única localização fora desse contexto — resulta de uma relação construída com base na confiança, proximidade e cooperação.
Mais do que acolher o festival, Águeda assume um papel ativo nesse intercâmbio. O autarca destacou que a parceria não se limita à importação cultural, mas envolve também a exportação de projetos aguedenses para Cabo Verde, num modelo de cooperação bilateral que reforça a presença internacional do concelho. A circulação de artistas e projetos entre os dois territórios é, nesse sentido, um dos pilares desta relação.
A noite de estreia confirmou, assim, não apenas a qualidade artística do cartaz, mas sobretudo a maturidade de um projeto cultural que cresce em escala e relevância. Com casa cheia e uma adesão significativa do público, o Kriol Jazz volta a afirmar-se como um dos eventos mais distintivos da programação cultural em Portugal.
Até domingo, Águeda transforma-se num verdadeiro ponto de encontro entre continentes, onde o Atlântico deixa de ser fronteira para se tornar ponte. A música abre o caminho, mas é na partilha de experiências, sabores e identidades que o festival encontra a sua verdadeira dimensão.
