Trofa do Vouga afirma ambição de se tornar “capital do folclore” no III Colóquio de Etnografia José Maria Marques

A Trofa do Vouga, no concelho de Águeda, recebe este sábado o III Colóquio de Etnografia José Maria Marques, uma iniciativa que se afirma cada vez mais como referência no estudo e valorização do património imaterial português, reunindo investigadores, dirigentes associativos e agentes culturais num espaço de reflexão, formação e construção de conhecimento.

Promovido pelo Grupo Folclórico da Região do Vouga e pelo Museu Etnográfico da Região do Vouga, o colóquio decorre no Auditório do Centro Paroquial e centra-se, nesta edição, no tema “Instrumentos Musicais no Folclore Português e a Arte de Saber Ourar”, cruzando duas dimensões fundamentais da tradição: a música e o ouro popular.

Mais do que um encontro pontual, o projeto assume uma missão clara e estruturada: colmatar lacunas de conhecimento científico no movimento folclórico, dotando grupos e ranchos de ferramentas técnicas que lhes permitam representar, com rigor e dignidade, a identidade cultural que preservam. Tal como definido na base do próprio colóquio, pretende-se “esclarecer dúvidas, atualizar competências e promover uma compreensão mais abrangente do património etnográfico”, com uma linguagem acessível mas sustentada .

Formação, conhecimento e rigor no centro do folclore

A sessão de abertura, marcada por intervenções institucionais e um momento musical, deu o tom de um evento que ultrapassa claramente a dimensão performativa do folclore. Ao longo do dia, foi reiterada a ideia de que cantar e dançar representam apenas uma parte de um universo muito mais vasto, que exige estudo, investigação e contextualização histórica.

Daniel Café, presidente da Federação do Folclore Português, sublinhou precisamente essa necessidade, defendendo que a verdadeira salvaguarda do património imaterial depende da produção e difusão de conhecimento. Uma visão alinhada com a génese do próprio colóquio, que aposta na formação como eixo estruturante do movimento folclórico.

Também Fernando Jorge Gonçalves, presidente da direção do Grupo Folclórico da Região do Vouga, reforçou essa perspetiva, lembrando que o projeto nasceu há três anos com o objetivo de corrigir práticas menos rigorosas e elevar o nível técnico dos grupos. “Sem formação, os grupos não conseguem crescer nem perceber verdadeiramente o que estão a fazer”, destacou.

Homenagem a José Maria Marques e continuidade de um legado

A iniciativa presta homenagem a José Maria Marques, figura pioneira na abordagem científica do folclore em Portugal. O seu legado foi amplamente evocado ao longo do colóquio, sendo reconhecido como um dos primeiros a defender que o folclore deveria ser entendido como uma “escola de vida”, integrando valores culturais, sociais e cívicos.

Rosália Martins, presidente da Assembleia do Grupo Folclórico da Região do Vouga, destacou precisamente essa dimensão, sublinhando que o colóquio representa “um reconhecimento do trabalho desenvolvido e a continuidade de um caminho que importa preservar e aprofundar”.

Crescimento do evento e ambição estratégica para o território

Um dos momentos mais relevantes do dia foi protagonizado por Lino André Santos, presidente da União de Freguesias de Trofa, Segadães e Lamas do Vouga, que evidenciou o crescimento consistente do colóquio, passando de cerca de 30 participantes na primeira edição para perto de uma centena nesta terceira edição.

Mas foi além dos números. Num anúncio com forte impacto estratégico, revelou ter lançado o desafio aos três grupos folclóricos da União de Freguesias para trabalharem de forma articulada, com um objetivo ambicioso: afirmar a Trofa do Vouga como “capital do folclore”.

A proposta assenta numa lógica de cooperação entre coletividades, potenciando sinergias, conhecimento e capacidade organizativa, numa visão que pretende transformar o território num polo de referência nacional no domínio do folclore e da etnografia.

Programa científico com aplicação prática

O colóquio estrutura-se num programa técnico que combina teoria e aplicação prática. Durante a manhã, a investigadora Rosa Maria Mota aborda a utilização do ouro popular nos séculos XIX e XX, analisando o seu enquadramento histórico e simbólico.

Da parte da tarde, Carlos Saraiva apresenta uma comunicação sobre cordofones nos grupos folclóricos, enquanto Fernando Sousa partilha uma investigação centrada na utilização de instrumentos musicais no movimento folclórico português, com enfoque histórico.

O programa inclui ainda momentos de debate e interação com os participantes, que tiveram oportunidade de submeter previamente questões e até enviar imagens de instrumentos e peças de ouro para análise técnica, reforçando o caráter aplicado da iniciativa .

Um evento com impacto local e projeção nacional

A presença de entidades como a Câmara Municipal de Águeda, a CCDR Centro e a Comunidade Intermunicipal da Região de Aveiro evidencia o reconhecimento institucional do colóquio e o seu potencial enquanto instrumento de valorização cultural.

No plano local, o impacto é já visível. A Trofa do Vouga afirma-se como um território ativo na preservação das tradições, sustentado por um movimento associativo dinâmico e, agora, por uma estratégia clara de afirmação coletiva.

Este III Colóquio de Etnografia representa, assim, mais do que um momento de reflexão. É um ponto de viragem: consolida um caminho baseado no conhecimento e na exigência, ao mesmo tempo que projeta uma ambição concreta — transformar a Trofa do Vouga numa referência nacional incontornável do folclore português.

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